Contos Sombrios


Parece que tudo não passou de um sonho, estranho dizer isso afinal não sonhamos. Sua presença em minha vida me fez sentir algo que a muito estava esquecido, algo que eu pensava já ter morrido como o resto do meu corpo. A calma e turbulenta sensação, o calor que queimava em mim como um raio de sol.
Por muitos séculos vivi preso em um espelho. A vida passava para mim, como passava o vento pela colina, era rápida, os anos não eram sentidos por meu corpo, mas mudava tudo dentro de mim. A escolha de sentir ou não era algo que temíamos quando jovens, mas que nos permitia viver quando muito velhos. Depois de séculos vendo o mundo se afundando em dor e a solidão me consumindo decidi que era hora de me tornar a besta, todos chegamos a essa decisão em certo ponto. A besta é algo que carregamos dentro de nós imortais, não se pode controlar este impulso de matar, de não sentir, de ser apenas o animal que nos tornamos, na verdade não devo chamar de animal, eles não merecem que nos comparemos. Ao assumir a personalidade da besta você vê a noite de outra perspectiva, não é mais um antro de solidão, é um parque de diversões, cheio de oportunidades e prazeres. Confesso, fiz coisas horrendas, experimentei de tudo que trouxesse prazer, e no fim descobri que certas pessoas podem ser muito mais bestas do que qualquer um de nós. Humanos que se libertam das correntes da moral, descobrem um novo mundo.
Acho que devo começar pelo começo, como posso dizer, foi uma noite como qualquer outra, o sol estava quase raiando e eu precisava voltar ao meu esconderijo, em um beco vejo uma mulher encolhida em um canto, as mãos cheias de sangue se misturando com as lágrimas que corriam de seu rosto. A cena me deixou intrigado. Fui até ela e perguntei qual era o problema, não houve resposta, seus olhos estavam fixos em um canto do beco. Um cadáver. Ela havia matado um homem de meia idade, cabelos brancos, aparentava ser um magnata.
_e...ee...eee...eu...mat...maatar.... Balbuciou.
_Humanos morrem, às vezes por motivos coerentes, às vezes simplesmente morrem. Alguns merecem esse destino, não se culpe. Disse a ela.
Não houve resposta. Eu não tinha o costume de ser simpático, em outro dia ela já teria sido morta.
_eeele...tentou...me...tentou...pegar...ajuda... Disse sussurrando ao meu ouvido enquanto encostava a cabeça em meu peito.
Senti algo, um frio na barriga, era estranho, há muito tempo não sentia algo do tipo se é que já senti antes. Ela me abraçou, forte, as lágrimas não paravam de descer. Não tive reação.
_você pode vingar ele? E me matar? Disse enquanto limpava as lágrimas e sorria para mim.
Eu não consegui dizer nada, mas dentro de mim ainda havia o instinto daquela besta. Comecei a não ouvir o ambiente, meu coração batia aceleradamente, e o cheiro do sangue da garota ficava cada vez mais forte. Não tive como evitar, eu jamais mataria uma pessoa naquele estado. Foi forte. Quando recobrei a consciência, minhas presas já estavam em seu pescoço e sua vida já estava por um fio, e naquele último momento algo me parou...
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Caminhava ele, sozinho, como sempre, vagando pelas ruelas de uma cidade em frenesi. Pensava em qual caminho seguir? Não, isso nunca o preocupou, sempre seguindo a maré, acabou entrando neste mundo por simples capricho do destino.
 Três dias atrás tinha encontrado um deles, era uma garotinha. Matá-la deixou marcas. Não se engane ele não queria se livrar delas, ele queria deixar que elas se agarrassem a sua alma, assim se sentiria humano, remorso era o único sentimento válido em seu corpo. Apenas uma carcaça oca e sem propósito.
O motivo para caçá-los? Por muitos momentos nem se lembrava de qual era. Conversa antiga, ele não se importava mais com isso, apenas fazia o que fazia.  
Naquela noite em especial estava melancólico como não estivera em dias. Foi ao bar, no porto, lugar nojento, imundo, apenas os vermes excluídos pela metrópole frequentavam. Não fazia mal, afinal era um deles. Encharcado de uísque, saiu horas depois, vagando novamente.
Consigo uma estaca e uma arma calibre 22, proteção, contra os vivos e contra os mortos. Estava na metrópole fazia anos, conhecia muito bem a noite interminável que a dominava, sabia muito bem onde encontrá-los e dar cabo sem ser descoberto. Nunca conheceu quem fizesse o mesmo que ele, mas conheceu muitos que se entregaram ao prazer que eles ofereciam. Nos clubes da cidade era fácil ver jovens se drogando e sendo levados para o lado obscuro dessa cidade, na verdade ele não sabia se ainda existia outro lado.
Uma duvida o atormentava: CAÇAR? A voz em sua cabeça dizia para julgar e punir todos os malditos responsáveis por levar aquela garotinha, a voz de sua consciência já quase inexistente, dizia que hoje não era um bom dia para ir atrás deles. A razão não foi ouvida, mas qual era a razão para ele? Qual era o limite do certo e do errado? Não sabia mais diferenciar essas coisas mundanas, deixara de ser sensato á muitos anos atrás. Caçar é pesado, doloroso, apesar de não serem humanos agora, já foram, um dia, e provavelmente estavam daquele jeito por culpa de algum imortal sádico que transformava até menininhas.
Uma busca no local onde encontrou a garota, uma ida ao bar mais frequentado, já tinha as pistas que precisava. Era experiente. Descobriu que a garota fazia parte de um grupo que vivia próximo ao subúrbio, presa fácil. A maioria deles vivia sozinha, mas em alguns casos grupos eram formados, talvez por que a imortalidade é solitária? Não sabia, e também não se importava. Matá-los era o que o mantinha em pé.
Foi ao local, estava vazio, mas ao canto de um dos quartos algo chamava atenção. Um braço, ele não se surpreendeu a principio, mas ao ver os restos do corpo espalhados pelo local, ficou furioso. Já tinha visto muitas bizarrices praticadas por eles, mas era um corpo de uma garotinha, assim como a garota que matara dias antes. Perguntava-se, se tirou a vida de uma criança viva, cego pelo ódio aos imortais.
Os rastros do covil o levaram até um beco não muito longe dali. Era um beco cercado por prédios enormes, apenas uma porta em uma das paredes. Espreitou pelo local, e como um passe de mágica, já estava dentro do local. Um cheiro insuportável tomava conta dali, a visão ainda desacostuma a escuridão total, ouvia gemidos de prazer. Rapidamente tratou de esconder a sua presença aqueles amaldiçoados eram muito sensitivos. Se tornou neutro e imperceptível. Caminhou pelo local a medida que sua visão se acostumava, encontrou várias portas trancadas e um barulho dentro delas, no geral eram gemidos, mas algo chamou atenção.
_Vamos, não deixe sua princesa esperando!
_Mas...er...mas...eu nunca fiz isso...
Não aguentou, arrombou a porta. Não podia acreditar no que via, simplesmente parecia impossível. Montado sobre o corpo de um homem, estava a garotinha que matara três dia atrás, sugando seu sangue, enquanto era sugada por outro deles. Não teve reação. A voz que dizia sempre MATE! MATE! Agora não dizia nada. Ele entrava em colapso, em sua mente tudo era esclarecido, seu erro, tentou matar uma garota pensando ser um daqueles malditos imortais, porém a vida não se esvaiu do seu corpo, algum daqueles malditos havia transformado a jovem menina.
_MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! MATAR! Começou a gritar, enquanto tirava do bolso a estaca e partia pra cima.
Com um golpe da estaca, o primeiro virou sangue espalhado pelo chão. Voltou-se para a garotinha dizendo.
_MALDIÇÃO! ERRO! ERRO! ERRO! MORTE! MEREÇO!
Sacou a 22 que estava na cintura, colocou-a sobre a cabeça. PAAAM! Um tiro roubava sua vida. Por um momento sentiu a libertação, pois em sua cabeça não havia vozes e em  seu peito nada de dor.
_Pobre criança! Tirou a vida ao pensar ser culpado por minha existência, mas devo parabenizar pelo que fez por minha metrópole, limpou as ruas daqueles que não respeitam as leis que criei. Venha! Você não merece morrer ainda, vamos caminhar mais uma vez por este mundo, venha lhe darei vida e propósito, verás que a morte é uma dádiva...
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Digamos que a noite sempre surpreende aqueles que a subestimam, e também aqueles que a superestimam. Digamos que a cidade sempre vai surpreender a qualquer um.
Nunca pensei que essa selva de pedra, solitária, amontoada de dor e julgamento, fosse fazer florescer algo tão belo quanto nossa imortalidade vinda da escuridão. Não creio que coisas belas venham da luz, afinal não sei mais como é a luz de uma manhã, já se foram tantos anos desde que vi um amanhecer.
Nem sempre vivi por aqui. Os velhos castelos, antigas cidades e montanhas isoladas eram meu lar antes de encontrar essa terra. Neste lugar mágico encontrei a verdadeira faceta da minha existência, e acredite em mim ela não é nada bela. As noites não são monótonas num lugar tão agitado, nunca se está entediado por aqui, e acredite em mim, tédio é tudo que lhe resta após alguns séculos.
_Nesta noite venho ate você. Para lhe contar uma historia? Não se iluda, não estamos falando de um roteiro de cinema. Nesta noite irei tirar sua vida. Não chore, você vai ver que a vida é tão fina e leve quanto um fio de cabelo e que não é nada doloroso romper este fio. Fique comigo até o fim dessa noite e me diga se prefere viver ou morrer, confesso que não vai fazer diferença, mas convido-o a tentar. Foi o que disse a fera a sua presa.
Vagarosamente foram os dois ao beco antigo e podre do bairro ao norte do centro. No beco havia uma porta e nessa porta um imenso homem de terno segurando um bastão. Lhes deu passagem, não fez perguntas. Dentro do lugar funcionava uma espécie de clube. Era uma casa noturna para gostos como posso lhes dizer, “exóticos”. Pessoas iam ao local para sentir a presa da morte cravando em seus pescoços, sugando o que lhe corre pelas veias, deixando apenas o leve fio que envolve a vida e a morte. Apreciavam sentir essa emoção, quase morrer, engraçado como a cidade incita esse tipo de coisa.
Sentindo um medo tão infinito, ele não conseguia correr ou mesmo se mover, só seguia a besta sabendo do seu destino, era inevitável. Dentro da casa noturna, havia uma pequena sala dentro de uma pequena sala, e no fim dela havia uma porta, essa porta dava para o salão principal de um grande e conhecido hotel da cidade. Seus olhos mal conseguiam acreditar no que viam. A besta seguiu andando pelo Hall do lugar e se encontrou com outra pessoa estranha e enigmática, foram aos aposentos do vigésimo andar. Uma reunião ali se iniciava, pessoas estranhas em velhos ternos, com rostos pálidos e pele branca, fumando grandes charutos e bebendo uma bebida vermelha e viscosa. Discutiam política, esportes, economia, tudo que tinha influência na vida comum da cidade foi dito dentro daquela sala, ele não sabia quem eram, mas sabia que eles mandavam naquela metrópole.
Saíram da reunião e foram ao porto, dizia a besta que um encontro havia marcado ali. Uma linda jovem surgiu, cabelos negros, longo vestido, linda. A besta não lhe disse uma única palavra, puxou-a pelo braço, mordeu seu pescoço. Ele nada pode fazer. Pobre garoto não podia salvar nem sua vida quem dirá uma vida alheia. A garota foi embora aparentemente fraca enquanto a feição da besta mudava de um velho e moribundo homem, para um jovem e apresentável rapaz.
A besta veio até ele, lhe ofereceu a mão, enquanto dizia que poderia lhe dar outra vida, dizia que poderia ser imortal. Não acreditou, gritou pela primeira vez desde que foi abordado, esforço inútil. A besta cravou suas presas no pescoço do rapaz que viu sua vida se esvaindo em questão de segundos. Como num urro de terror, uma mistura de dor e compreensão, ele gritou dizendo.
_Faça!
A besta não hesitou em tirar cada gota de sangue do corpo daquele jovem. Enquanto a morte se apoderava do garoto outro lado da mesma moeda lhe dava nova vida. Uma gota de sangue em sua boca e o beijo de um imortal em sua alma. Renascido, dentro de poucas horas acordaria com uma grande fome e muitas perguntas.
A cidade sempre linda, metrópole de muitas facetas. Para quem vive na escura e velha face deste lugar uma noite pode ser tudo como também pode ser nada. Uma noite é tudo que temos pela frente, sim e talvez não, a imortalidade é uma benção carregando uma maldição, pois o tédio, ele acaba triunfando no final tudo.
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Dizia ela pelo amanhecer de nossa noite que naquele dia em particular iria procurar um homem de pele escura e olhos azuis, excêntrico eu disse a ela.
Saímos do covil quando o sol já não fazia parte do dia. Fomos ao velho e caído clube de sempre, tomamos as mesmas bebidas mórbidas e caídas que tomávamos todas as noites e voltamos a olhar ao redor a procura de carne fresca, afinal a diversão ainda estava por vir. Ela sempre gostou mais da diversão do que eu, sempre fui mais careta, só me alimentava e não aproveitava muito o “momento”. Ela dizia que eu parecia um velho ancião que se cansou da noite e virou uma barata em um velho castelo no antigo continente. Isso não me afetava muito, de certa forma era verdade, minha alma era velha mesmo antes de eu ser banido da luz do dia, uma antiga alma em um corpo jovem, coisa feia, uma criança ainda com tanto pela frente, mas não fazia muito para aproveitar sua inocência. Quando fui trazido à escuridão ainda era jovem, apesar de não ser um exemplo de vontade tinha meus objetivos, eu era um jornalista, bom eu era um estudante de jornalismo.
Saímos do bar, acompanhados, duas lindas jovens, cabelos pintados e roupas transadas. Fomos ao beco atrás do bar, supostamente para darmos uns amassos. Eu não gostava de fazer aquilo daquela maneira, era mecânico e grosseiro demais, mas ela dizia que era o jeito mais fácil e limpo de se fazer. Deixamos novamente duas pessoas em um beco, sem saberem o que lhes aconteceu e como cortesia uma forte dor de cabeça no dia seguinte.
A cidade era linda a noite, e sempre receptiva a quem gosta de ousar, acho que a definição de metrópole encaixa bem nessa cidade. Não era minha terra natal, sou nativo de um lugar muito além dessa selva de pedra, cidade pequena, interior eu acho, nunca me importei muito com isso.
Ela insistia na história do homem negro de olhos azuis, embora eu alertando que seria perda de tempo. Fomos a uma boate na zona central da cidade, lugar badalado, sempre rondado por um ou dois de nós, sempre cheio de pratos fáceis e refeições rápidas, perfeito para quem gostava de discrição. O segurança era conhecido e amigo próximo dela, sempre foi receptivo e nos deu passagem ao clube. Ela sempre animada, para alguém à tanto tempo na noite ela parecia mais como uma criança numa loja de doces, não uma idosa como deveria, nesse ponto nossas almas eram invertidas, dupla estranha? Também acho.
O interior do clube tinha um clima pesado, músicas desconexas e iluminação fraca davam ao lugar o estilo gótico que virou moda, por essas bandas, jovens se trajavam de preto, látex e couro faziam parte do visual, maquiagem pesada e um gosto exótico, eles se achavam seres da noite, pobres coitados não faziam ideia do que lhes rondava escondido nas sombras. A vontade fala mais do que a razão hoje em dia e aquele lugar incitava o querer e deixava de lado o pensar. Logo que entramos, dois garotos com brincos pelo rosto e alargadores bizarros nas orelhas começaram a nos farejar, sim eles vieram nos cheirando, achei estranho, mas ela como sempre adorou aquilo. Foi logo dando um beijo na boca de um deles, o garoto ficou em choque, penso que ele em toda sua pose nunca imaginou que algo assim viesse a ocorrer.
Fomos ao centro da pista, a música não agradava aos ouvidos, pareciam gemidos ao som de batuques indígenas, mas ela gostava e queria dançar, eu como de costume não sabia dizer não, então dançamos por algum tempo, coladinhos, como amantes, mas não se engane, nossos corpos são gelados, e não é exatamente agradável ao toque.
Ela foi puxada pelo ombro, quando me dei por conta, já estavam longe. Acompanhada do dono da casa noturna, subia as escadarias para o segundo andar do local, segui andando na direção deles, mas algo mais interessante me chamou a atenção. Era um casal vestido em roupas comuns, tinham cara de ser bem monótonos e não combinavam nada com o clima do local, fui em direção deles e pude perceber a mulher suspirando e se contorcendo por me ver, não poderia ser por outra pessoa, ela olhava no fundo da minha alma. Fui até ela, muito mais por instinto do que por razão, eu disse que o lugar instigava. Ela suspirou fortemente quando sentei ao seu lado, o marido não disse nada, ficou estático me olhando, parecia querer um pedaço também, não demorou muito, saímos da casa noturna, fomos em direção a casa deles. Não chegamos até o local é claro, tudo foi consumado dentro do carro do casal, em um gueto da cidade, lugar pouco trafegado. A mulher, eu não pude resistir ao toque e ao perfume que exalava e que para mim era tão amplificado que exaltava a sua beleza interna e escondida por um casamento fracassado. O homem não queria perder a brincadeira, então tive que fazê-lo sentar e esperar. O prazer de beber o néctar é diferente quando você se envolve com a presa, não tratando apenas como comida. É uma experiência raramente aproveitada por meus semelhantes.
Deixei os dois desacordados e confusos no carro e voltei pro clube, ela estava de novo na pista, agarrada a um jovem mulato de olhos azuis que brilhavam e refletiam a fraca luz do recinto. Ela havia conseguido novamente, sempre me questionei como ela fazia aquilo.
A noite terminou como qualquer noite para nós, saciados. A metrópole nos oferece tudo que precisamos e isso se comprova no numero de gente como nós na cidade. A noite cedia e dava lugar a luz do sol, era hora de voltar para o covil antes de virar frango frito, melhor dizendo morcego frito.
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Anna me contou toda a história de sua vida e morte. Viveu num tempo difícil, nascida de um amor ardente que após anos se transformou em um ódio crescente, passou a vida cuidando da terra e do gado, não tinha tempo para coisas fúteis como amores ou diversão, a cobrança de sua família era grande e ela não arriscaria irritar o pai. A vida de Anna muda totalmente ao encontrar no fundo de uma caverna um velho caixão e um homem pálido dentro dele com uma estaca em seu peito.
Quando removeu a estaca Anna não fazia ideia do que aconteceria e o que aconteceu foi o algo além de sua imaginação. Do caixão o homem se ergueu, parecia sedento, faminto, não tinha brilho no olhar e sua pele ressecada, devia estar ali por muito tempo. O homem não disse uma palavra, apenas levantou-se e foi saindo da caverna, voltou correndo rapidamente, o sol tinha queimado sua pele e ele parecia temer muito a luz do dia.
Dias foram se passando e o estranho homem parecia melhor a cada noite, claro ela só o via nas noites que encontrava uma forma de sair da sua casa, ele não permitia que o visse durante o dia, ela não entendia, mas também não fazia questão de questionar. Com o tempo o homem passou a falar e foi ficando mais vistoso, a cor voltava ao seu rosto aos poucos e seus olhos estavam brilhando novamente. Anna ia visitá-lo sempre que podia, era seu único amigo e no fundo ela alimentava uma paixão.
Estranhos ataques de animais começaram a ocorrer nas redondezas, um dia uma mulher teve seu sangue sugado até a morte, no outro um rapaz foi deixado à beira de uma estrada com marcas de mordidas no pescoço. A igreja dizia ao povo para se trancarem em casa durante a noite e não deixar nenhum visitante suspeito entrar enquanto secretamente trabalhava para erradicar o perigo ali presente.
Consequentemente Anna descobriu sobre o homem, ele era um vampiro. O fato não mudou muito no relacionamento dos dois, Anna apaixonada, o homem começou a se envolver também, não é uma tarefa fácil resistir à beleza de Anna. Foram construindo um relacionamento, raramente Anna passava as noites em casa, estava sempre fugindo pelos fundos para se encontrar com seu amante, foi numa dessas escapadas para namorar que algo aconteceu. Anna e o homem caminhavam pelos campos enquanto ela tagarelava sobre coisas sem sentido, algo digamos bem comum em um casal apaixonado, quando então homens em seus cavalos com tochas na mão surgiram cercando-os e dentre esses homens surgiu um velho de barba branca,não tinha o olho direito, traços marcantes, Anna dizia nunca ter esquecido aquele rosto. Este homem era um caçador de seres sobrenaturais, conhecido de Elii, havia sido ele um dos principais motivos dele ter se trancado em um caixão e dormido por décadas.
Sem dizer uma única palavra o homem esfaqueou Anna e deu ordem para prender o vampiro, Elii tratou rapidamente de pegar Anna e correr o mais rápido possível, o caçador de vampiros não o alcançaria tão facilmente.
Anna estava pálida, o brilho desaparecia de seus olhos rapidamente, Elii mordeu seu próprio pulso e fez o sangue jorrar e deu para que Anna tomasse, ela recusou e disse uma frase que mudaria sua vida e também a minha.
_Faça-me como você!
Elii tomado pelo amor por Anna e pela vontade de viver eternamente ao lado dela, fez todo o ritual para se transformar alguém em um vampiro, mas era incerta a transição, Anna estava muito ferida e podia não dar certo. Bom, Anna se transformou em uma vampira, mas nem tudo tinha saído como planejado, ela não era mais a mesma, sua personalidade estava diferente e a garota que ela fora outrora estava morta.
Elii não conseguiu viver ao lado de Anna, ele havia se apaixonado por uma pessoa, mas essa era outra totalmente diferente. É claro que ele não abandonou um vampiro jovem, passou quase um século ao lado de Anna lhe ensinando tudo sobre o mundo dos amaldiçoados. Depois que sua cria já podia se virar sozinha Elii se ausentou com o propósito de procriar e construir uma família para carregar seu sangue amaldiçoado.
Anna passou anos em cidades vivendo em ninhos com outros vampiros, viveu anos no anonimato, até que por um desvio de percurso ela sugou o sangue de seus companheiros de ninho e foi sentenciada a verdadeira morte pelo príncipe de Paris, Luciel Hellsing. Ela não esperou ser caçada, foi ela quem caçou toda a autoridade maior de Paris. Dizimando o conselho e a guarda da cidade ela chegou aos pés do príncipe.
Luciel era um vampiro jovem e mantinha um ódio pela autoridade maior, responsável por dar a ele um cargo político que soava mais como uma piada. Anna sabia disso e se aproveitou, fez de Luciel um companheiro para um golpe de estado. Juntos idealizaram um atentado ao alto escalão de Londres que deu fama a Anna e colocou Luciel no alto circulo de poder da cidade.
Com a influência de Luciel, Anna sequestrou o chanceler maior do conselho de Londres e sugou seu sangue perante centenas de pessoas, humanos e vampiros em um famoso bordel da cidade, enquanto Luciel informava aos anciões à ameaça que o sangue Cassius representava. O conselho emitiu uma ordem imediata a todo continente Europeu, a ordem era trazer a cabeça da pecadora.
Anna teve que se refugiar fora das cidades por tempo indeterminado, viveu muitos anos entre os lobos no norte do continente, viveu em outros continentes, mas agora era hora de voltar, afinal algo grande estava para acontecer...
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Cansado de ser a piada de certa comunidade, um vampiro decidiu sair da cidadezinha onde vivia desde que ainda era vivo. Afinal a vida era difícil para alguém com os seus problemas e não precisava dos outros vampiros rindo por suas costas, e nunca gostou de ser motivo de chacotas.
Desde criança nunca foi muito lúcido, sua mente sempre lhe pregou peças, como na vez em que pensou que podia voar e acabou pulando de sua casa na árvore lhe rendendo uma vistosa cicatriz na testa que carregará pela eternidade. Ou quando pensou que a roupa do palhaço em sua festa estava em chamas, certamente um vexame para a família. Trancafiado em um sanatório, vivendo sobre a influência de remédios passou sua juventude, quando em uma tentativa de fuga acabou nos braços de um vampiro que simpatizando com sua causa lhe transformou em um ser da noite.
Depois de se tornar um morto-vivo, seus problemas ficaram mais sérios, de pequenos casos isolados, sua perda de lucidez começou a se tornar freqüente e uma voz sempre falava em alto e bom tom dentro de sua cabeça, além é claro dos eletrodomésticos e animais com os quais conversava.
Viveu sua vida como um homem do interior, não conhecia muito sobre as coisas fora de sua cidade, mas o desejo de ver grandes coisas sempre o tomava em sonhos mirabolantes, assim decidiu ir para a maior cidade que encontrasse no caminho.
Viajar a noite era fácil e tranqüilo além de ser muito simples de se alimentar, afinal hospedarias sempre estão cheias neste horário. Era um vampiro que não gostava da caçada, talvez por que ideia de perseguição lhe dava arrepios afinal sempre sentia que alguém o observava, provavelmente coisa da sua cabeça. Alimentava-se principalmente de pessoas adormecidas, idosos ou crianças, em geral bebia sangue de pessoas sem reação e vivia como um parasita. Seu estilo de vida era fortemente criticado por outros vampiros de sua localidade que sempre caçoavam dizendo que talvez um dia uma velha acordaria e o atacaria com sua bengala, gargalhadas sempre surgiam nessa hora.
Bom foi numa das primeiras noites de viagem que aconteceu algo inusitado e que estranhamente mudaria a sua não-vida. Entrou em uma pequena hospedaria dessas de beira de estrada, lugar bem sujo e acabado, foi ate o primeiro quarto que encontrou e abriu a porta, na cama estava deitada uma jovem de longos cabelos negros e tinha uma estranha mania de falar ao dormir. Encantado seus olhos regozijavam tamanha sorte de encontrar em lugar tão desolado uma criatura tão bela. A voz em sua cabeça dizia para ele sugar o pescoço da jovem, sua sensatez lhe dizia que havia uma enorme chance de algo dar errado, ele era um vampiro de pouca idade não sabia fazer coisas como hipnotizar alguém, então se a jovem acordasse seria um pesadelo. Mas como de costume sua sensatez não foi capaz de pará-lo e a voz da loucura comandava novamente. Lentamente foi escondendo sua presença e se aproximando do corpo da garota, um leve toque em seu rosto de pele macia e impecável simetria fez suas presas se mostrarem, tratou de fazer logo o que tinha que fazer e cravou suas presas no pescoço da dita cuja. Mas quando os sentidos nos dizem que algo vai dar errado é melhor ouvi-los, a garota se levantou da cama gritando em desespero, sem saber o que fazer o vampiro tratou de se esconder rapidamente, a garota meio sonolenta ainda disse em alto bom tom para que quem estivesse com ela no quarto se mostrasse, e que não tivesse medo, pois ela não era nenhum tipo de fera. A beleza fala alto em certas situações e ele foi se aproximando da garota aos poucos, com medo do que ela acharia de sua aparência pálida e sua cara de morto, estranho ele pensar assim afinal era um morto. Então ao se aproximar da moça ela mandou-o sentar na beira a cama próximo a ela que foi falando com sua voz suave:
_O que é você? Sei que não pode ser como eu ou qualquer outra pessoa, eu te vi nos meus sonhos antes de acordar!
Acontece que a mente do vampiro havia entrado na mente da garota e a feito sonhar com ele mesmo, somente a voz na sua cabeça para fazer tal coisa. Lerdo e péssimo pra lidar com pessoas como sempre foi não conseguiu dizer uma só palavra, irônico um vampiro tímido. Nunca esteve tão perto de uma mulher tão bela, melhor dizendo nunca esteve tão perto de mulher alguma fora sua mãe e as enfermeiras do manicômio onde passou sua adolescência. A garota com toda sua delicadeza passou a mão pelo rosto do vampiro bem devagar enquanto olhava no fundo de seus olhos, após anos sozinho era a primeira vez que alguém lhe tocava a pele, a voz na sua cabeça disparou a dizer coisas loucas e sem sentido. A garota levemente se aproximou e beijou o vampiro, nunca uma mulher havia o beijado antes, a voz na sua cabeça se calou. E por alguns segundos o vampiro se sentiu vivo novamente.
Eu gostaria de ficar por aqui e dizer que tudo terminou bem e que o vampiro viveu feliz, mas na manhã do dia seguinte um grupo de pessoas encontraram em uma casa abandonada em meio a mata um corpo pálido, parecia um homem morto, certamente era um homem morto, ao carregarem o corpo do vampiro para fora, sob a luz do sol sua eternidade teve fim ! 
Nada é eterno, toda forma de imortalidade na verdade é apenas uma trapaça contra o tempo. A mente do jovem vampiro ficou em um silêncio enlouquecedor, a ponto de qualquer um implorar para ter as vozes falando novamente.
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O homem de barba negra convocou todos à mesa dizendo ser hora de iniciar a reunião, ainda não estava entendendo muito do que acontecia ali. Ler as situações nunca foi uma habilidade que possuí mesmo depois de morto, digo morto-vivo. Anna me puxou pelo braço e nos sentamos.
_Conselho de Londres batendo em nossa porta! Alguém pode me explicar como isso pôde acontecer? Disse aquele que nos convocou.
_Meu senhor, o conselho enviou Hellsing e essa jovem criança de Anna para seguir nosso rastro. Disse Anita.
_Hellsing! Este é um nome que vampiro algum gostaria de ouvir, mas o destino gosta de brincar com vidas, quem diria que um caçador de vampiros se tornaria o que abomina! E o que temos aqui? Jovem criança de Anna, que apesar de ser abandonado manteve sua ligação de criado e guiou os vermes de Londres até nossas portas. Estamos ameaçados! Isso vem acontecendo durante séculos, burocratas que se dizem a autoridade nos caçam, dizimaram metade da nossa família! Digam - me como podemos deixar uma ameaça de tal porte bater em nossa porta? Retrucou o homem de barba negra.
_Elii! Deixe de ser dramático! Estamos acostumados a fugir, a história da nossa família foi escrita em fugas e lutas contra a autoridade, deixe q Luciel conte o que veio lhe contar, ele é de minha inteira confiança e meu garoto deixe que eu mesma trato dele! Gritou Anna em tom de deboche.
_Anna! Inconveniente e debochada! Nunca mudará minha criança? Mas devo concordar com suas citações, irei ouvir o que o vampiro Hellsing tem a dizer e deixar que esclareça a mente de sua cria. Tenham essa reunião por encerrada. Disse Elii.
As cadeiras na mesa se esvaziaram em questão de segundos enquanto Anna me puxava pelo braço. Fomos a um quarto grande, confortável e de decoração impecável, incrível para algo que estava dentro de uma montanha. Eram os aposentos de Anna. Ela começou então a me contar a verdade por trás das verdades...
Anna não fora criada pelo sangue de vários vampiros e a gula não é uma maldição, os vampiros da família Cassius são os únicos capazes de sugar o sangue de outros vampiros. O conselho não podia deixar que qualquer vampiro soubesse que seu sangue poderia ser sugado por outro vampiro, isso traria caos desnecessário, então a história que me foi contada é a versão oficial criada por Londres.  
A família Cassius se tornou uma grande ameaça aos vampiros anciões, pois ao sugar o sangue de um vampiro mais antigo que você, um morto - vivo que vem de uma geração anterior a sua, você absorve suas habilidades, absorve o potencial daquele vampiro, toma os anos de vida e suas memórias, enfim o vampiro que suga sangue de outro imortal tem este dentro de si. Durante séculos o conselho de Londres e as autoridades tentam dizimar todos os vampiros nascidos do sangue Cassius.
Elii Cassius o ancião da família, mais velho do que o próprio conselho, nascido da fome e da gula em um tempo onde vampiros eram apenas bestas selvagens, e os humanos apenas uma espécie em evolução. A história conta que um vampiro sugou o sangue de inúmeros humanos e não se saciou então ele sugou o sangue de seu criador e o sangue deste sendo mais forte e imponente dominou o vampiro se fundindo a o seu eu anterior e formando uma besta evoluída, um vampiro capaz de beber o sangue de outros amaldiçoados. Esse vampiro era Elii.
Elii vagou por séculos, sozinho na escuridão da noite eterna. Considerado um dos mais notórios assassinos da noite, dizimou o conselho de Londres em sua fundação, mas chamou atenção demais para si, por isso enfiou uma estaca em seu peito ficando em torpor até que alguém o libertasse desse sono. Foi quando uma jovem curiosa encontrou no fundo de uma caverna uma caixa velha, e dentro dela um homem pálido...
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