Contos Sombrios



Eu particularmente cansei de esperar. Desde o momento em que me trouxeram à noite, a contragosto inclusive, não me disseram uma única palavra e me impedem de sair deste maldito lugar.

Me pergunto se haverá algo lá fora, já são tantos anos que me escapa a sensação de caminhar pelas ruas, pra ser bem sincero este corpo agora não possui sensação alguma. Os filmes erraram e muito quando tentaram descrever essa gente, se é que posso chamar de gente, a realidade é muito mais cruel e intensa que aquela baboseira toda e no fundo a gente sente essa fome incontrolável. Bom, de fato existem algumas coisas que podemos sentir.

A fome é um grito obscuro e profundo, algo que não vem do estômago ou qualquer orgão interno, pra falar a verdade eles já apodreceram dentro de mim posso dizer pelo cheiro que exalam, é, tem isso, somos literalmente cadáveres ambulantes, pelo menos os da casta deste que me transformou. Talvez você não tenha entendido mas nossas carcaças amaldiçoadas apodrecem à medida que o tempo passa apesar dele não ter o poder de findar nossas existências, talvez seja este o motivo de não me deixarem sair daqui. Os mais velhos já se acostumaram à podridão e alguns elevaram seus conhecimentos da antiga magia do sangue a um certo nível em que podem manipular a imagem que as pessoas podem ver de si próprios, bom, posso dizer que algumas vantagens nos são dadas quando trazidos à noite.

Não me julgue, estou tentando manter o bom humor apesar de minhas condições atuais, preso neste maldido lugar à mais de sessenta anos. Você não tem a mínima noção do estrago que o isolamento faz contigo. Passo todas as horas desde o crepúsculo ao amanhecer dentro deste lugar e tenho interação apenas com aquele francês babaca que vêm me alimentar. Esta aí outra parte em que o cinema errou em cheio, a alimentação. É muito mais grotesco do que imagina mas, é improvável que vocês se aproximem da verdade afinal a máscara que encobre nossa real existência é bem manipulada pelos conselho dos antigos, gostaria de ter mais informações sobre eles mas infelizmente só sei o que pude ouvir através das paredes deste cárcere maldito. Voltando à alimentação, em minha experiência ela foi introduzida e se mantém da maneira mais grotesca possível, aparentemente só tenho a permissão de receber os restos dos que habitam a liberdade, portanto me alimento de cadáveres em elevado grau de putrefação. As experiências foram traumáticas mas aos poucos a gente pega o jeito, é a fome entende? Você jamais sentiu uma necessidade tamanha de se alimentar como a que sentem os amaldiçoados pela noite.

No começo fiquei bastante assustado e o desespero me fez refém de suas inomináveis facetas de terror por tanto tempo que quebrou meu espiríto lenta e dolorosamente. Pelo menos isso passa, parece que a mente ganha certa clareza após perder cada aspecto de sua personalidade humana. Descobri que humanos não são nada neste mundo, nem mesmo as suas escolhas são realmente suas, nada é real para eles, são criados como gado de seres tão antigos quanto o sol e a lua. Preciso esclarecer uma coisa, mesmo preso dentro deste lugar obtive conhecimento de diversos aspectos desde mundo assombrado, entretanto eu não me esforcei para descobrir essas coisas, as vozes disseram. É como se fosse uma programação do dna amaldiçoado que te conecta com coisas tão antigas que até mesmo uma besta temeria revelar. Existem diversas linhagens sanguíneas e famílias neste lado obscuro da lua e cada uma delas tem uma intíma conexão com seres tão inigualavélmente ancestrais que minhas palavras sequer podem descrever o terror que representam. Somos filhos de uma sociedade antiga e cruel, uma antiga civilização de planos etéreos que foi banida de sua antiga casa.

Pobres humanos que antes mesmo de surgirem neste plano já estavam fadados a ser alimento de minha espécie. Lentamente foram entrando em seus cercadinhos e cooperando silenciosamente com os planos nefastos dos amaldiçoados que, das sombras manipulavam cada simples movimento de sua espécie. Cresceram em números de uma forma tão estupenda que hoje há uma fartura infinita de carne fresca, bom, pelo menos para aqueles que são dignos de uma alimentação decente. Aqueles que como eu ainda estão presos nestes malditos cárceres não puderam experimentar o êxtase de uma vida pulsando em suas presas. É muito estranho como a sensação está enraízada em meu ser mesmo sem nunca ter de fato experimentado.

Acho que preciso dizer que de fato há sensações neste corpo pútrido, a fome e o êxtase. Por enquanto estou aqui preso e sei intimamente que meu sofrimento ainda se extenderá até o momento em que me tornar totalmente inerente a ele e não me tornar um ser completamente frio e faminto. Aprendi da voz que este é um ritual de passagem e que todos os nascidos desta linhagem precisam passar par alcançar a sublime arte do sangue.

Enquanto você reflete sobre as informações tão abruptas e contestáveis deste relato, eu me retiro ao leito pois, a noite terminará em instantes e a sala em que estou possui uma clarabóia especificamente para que eu vire frango frito assim que o sol adentrar o recinto.

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